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[CONTO] A esposa cativa de sua fêmea

O escuro não à toa harmoniza silabicamente com o desnudo. De fato, trata-se de uma rima
imperfeita, mas é inegável a relação íntima entre as duas palavras. Ambas carregam a ideia
de suspensão: uma do olhar, a outra da defesa.
No escuro, tudo permanece em estado de pausa. Não se enxerga, não se define. Os
contornos se desfazem e os corpos agem como sombras que se arrastam em um espaço
curto, calculando o próximo movimento antes de ousar fazê-lo. O escuro permite o
adiamento, o quase, o intervalo entre o desejo e a ação.
No desnudo, o antônimo inversamente proporcional se impõe. Se enxerga, se define. Os
corpos não apenas se movem — eles se procuram. Há uma urgência em juntar-se até que
não haja espaço suficiente para conter o excesso. Não caminham: correm. E o lugar é
sempre pouco, insuficiente, exigindo que se esparramem por outros cantos, outras
superfícies, outros apoios.
Desnudos, os corpos se cobrem de volúpia sobre qualquer metro quadrado disponível. Há
mãos espalmadas na parede da sala, dedos buscando apoio onde antes havia apenas
passagem. Pernas suplicam, não por piedade, mas por continuidade. Unhas se fincam nas
coxas, marcando território, enquanto dedos se espraiam por um interior que exige a
voracidade de um toque consciente, sedutor e deliberadamente delicioso.
Há, no entanto, um ponto preciso no universo em que os opostos deixam de se repelir e
passam a colidir. Quando o escuro encontra o desnudo, o resultado não é equilíbrio — é
explosão. Uma descarga inesperada que reverbera em gozos profundos, capazes de cortar
qualquer noite de luar e silenciar a timidez que, minutos antes, ainda justificava a ausência
de luz no momento de desfazer-se das roupas.
E de contrastes que se complementam, eu e minha esposa Samantha sempre entendemos.
Quando nos conhecemos, éramos quase inimigas. Muito por conta do jeito complicado de
Sam — calculadamente fria, ostensivamente contida. Ainda assim, bastou o primeiro atrito
para que o desejo se infiltrasse onde a razão acreditava estar segura. Passamos, sem
perceber, da rivalidade à curiosidade, da curiosidade ao toque, e do toque a amantes
irremediáveis, cada vez mais atraídas por aquele elemento comum entre nós: o licor, o olhar
prolongado, o perigo sutil de ir longe demais.

— Sam — repreendi, sentindo o ardor do álcool misturar-se à sensação da língua da minha
mulher lambendo minha orelha.
Não havia gosto ali, apenas as milimétricas partículas do líquido que ainda repousavam no
dorso da língua que escapava entre os lábios de Samantha. Era o suficiente para me
convidar — ou melhor, empurrar — a inclinar-me mais contra a porta de entrada do
apartamento em que vivíamos. O corredor estava silencioso demais, e essa ausência de
som tornava tudo ainda mais impróprio.
Mal tive tempo de manter a chave na mão. Bastou nos aproximarmos da porta e
constatarmos a ausência de qualquer testemunha para que Samantha agarrasse minha
coxa esquerda, encaixando o corpo ao meu quadril com precisão ensaiada. Em seguida,
como se aquilo ainda fosse pouco, elevou meus braços acima da cabeça, prendendo meus
pulsos contra a madeira fria da porta.
O contraste era imediato: o corpo quente, o ambiente contido, a ameaça constante de
sermos vistas. Meu coração acelerou não pelo medo, mas pela certeza de que, se alguém
abrisse aquela porta naquele instante, já seria tarde demais para recuar.
E Sam sabia disso.
— Você não está me repreendendo — disse Sam, depois de lamber lentamente a curva da
minha orelha. — Está fingindo que o quase público te desagrada só para manter o jogo
vivo.
Seus olhos negros me atravessaram com precisão. Senti, no mesmo instante, o castanho
mais claro dos meus acender-se em resposta. Uma mistura perigosa. Antiga. Conhecida
demais para ser ignorada.
— Jogo? — fiz-me de desentendida.
A provocação calculada me rendeu um tapa firme na lateral da bunda, seco o bastante para
ecoar pelo corredor e talvez acordar meio andar. Reagi como qualquer mulher dominada
por um fogo intenso: não me importei nem um pouco.
— Esse — continuou ela, sem afastar a mão — de dissimular que me quer exatamente da
forma como seus olhos suplicam. Eu os conheço. Estão assim desde a primeira vez que eu
te destratei… e você me colocou no meu devido lugar.
Ri da presunção anunciada, ainda sentindo a ardência dominar aquela parte específica do
corpo. Samantha, por sua vez, acariciava com calma o círculo avermelhado que havia
produzido, como quem cuida da própria obra. Nenhuma de nós desviou o olhar.
— Você se acha a última Coca-Cola do deserto — falei, revirando os olhos.
A ironia, no entanto, não se sustentou até o fim da frase. Do sorrisinho que tentei manter
restou apenas uma atração indisfarçável. Meu corpo me traiu antes que eu pudesse
disfarçar.

— E mesmo assim você beberia de mim a noite inteira até que sua sede acabasse —
respondeu, sem hesitar. — Você me quer. E eu até sugeriria que admitisse isso… se não
fosse tão bom te ver cair pelas próprias palavras.
Ela sentia. Sabia. Assim como eu sentia o calor que se acumulava diante daquela disputa
silenciosa, percorrendo cada centímetro do espaço mínimo entre nós. Éramos feitas
daquilo. Sempre soubemos que uma boa noite nascia exatamente desse atrito.
— Convencida — retruquei, já sem muitos argumentos.
Estava em desvantagem desde o momento em que me vi nua antes mesmo de estar fora
das roupas. Sam havia me despido com antecedência e guardava a medalha de honra
entre os dedos, que agora deslizavam perigosamente pelo meu corpo, denunciando-me à
medida que se aproximavam do meio das minhas pernas.
— E como não ser — murmurou — se a minha garota já está assim para mim?
Seus dedos alcançaram o interior das minhas coxas, detendo-se na calcinha. Massageou
apenas por cima, com lentidão cruel, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Você é diabólica — tentei contestar, no último fôlego possível. — Bem se vê que as que
se fazem de conservadoras são sempre as piores.
O suspiro que escapou depois disso soou quase como uma rendição. O que veio em
seguida não foi queda, mas o início de uma nova vida nos braços daquela mulher
indomável, que sem delongas começou a buscar pele contra pele, presença contra
presença.
Esperei que demorasse mais. Ingenuidade minha.
Com Samantha, nunca houve previsões. Quando eu achava que ainda era cedo, já era
tarde. Quando julgava ser dia, a noite havia se instalado. Quando pensava sentir frio, o
calor já me dominava por inteiro.
Imprevisível.
— Faz parte do meu charme ser assim, cheia de camadas — murmurou. — Quem
esperaria que Samantha Castro, a mulher recatada, dona de uma famosa empresa de
publicidade, fosse uma pervertida com a própria esposa? E quanto menos esperam… mais
eu aproveito.
O sotaque dela ressoava perto demais do suor que escorria pelo meu pescoço. Álcool e
pele se anunciavam juntos, presentes, vivos.
— Ou melhor… — o sorriso presunçoso se abriu com lentidão — eu me aproveito de você.

Respirava como quem não tem pressa alguma. Com calma calculada, começou a estocar
contra o meu interior já ensopado, que se entregou de olhos fechados ao sublime.
Minhas mãos presas. Minhas pernas abertas. O choque dos dedos abrindo a boceta
enquanto entravam. Dois deles. Não havia barulho, tampouco silêncio — havia um estranho
encontro entre opostos que se fundiam. Meio nuas, meio públicas. Meus olhos fechados, os
dela atentos.
Não existia nada mais único do que nós duas e, ao mesmo tempo, nada mais habitual.
Íntimo, sim. Próximo. Sonoro apenas na medida do que se pedia. Carinhoso até onde não
exigia mais. Havia amor, mas era o selvagem que dominava, comprimindo o ar nos meus
peitos a tal ponto que, quando gozei, mal houve consciência de espaço.
Num instante ainda era corredor. No outro, sem transição, já era o quarto. A meia-luz —
porque o meio sempre foi nosso termo — nos banhava num vermelho quase sanguíneo,
devolvendo-nos a um estado primitivo, cru.
Cedendo ao que havia de mais animal, nos agarramos em beijos desesperados até
tombarmos sobre a cama imensa, no centro do quarto. Ela aparou a queda, impedindo que
eu fosse ao chão no momento exato em que gozei, presa aos braços da mulher que me
carregou até ali.
Ainda trêmula, permiti todos os espasmos possíveis a uma mulher absorta pela grandeza
da esposa. Gemi, movi-me como se fosse convulsão, mas permaneci entregue — um
desfile de pés descalços à beira do precipício que chamávamos de limite.
— Preciso te guardar agora mesmo — decidiu Samantha.
Com suavidade, retirou a câmera da cômoda. Um presente de Natal. O detalhe agora se
impunha sem alarde: se um dia houve câmera, era para preservar essas memórias em que
nos desejávamos assim.
Flertávamos com o abismo do prazer e ainda ousávamos aprisioná-lo no apertar de um
botão. O flash cortou o escuro no instante em que ergui o vestido, o indicador direito
pousado nos lábios, sorrindo diretamente para a lente. Ela disparou várias fotos e me
mostrou.
Se fosse um quadro de Renoir, eu me chamaria O feminino em seu pleno estado de êxtase.
— Gostou do registro? — perguntei, a língua presa entre os dentes, sorrindo enquanto
provocava.
E fui mais fundo. Ainda que estivéssemos apenas molhando os pés. Caminhei até a
cabeceira, apoiei os braços, aninhei a cabeça sobre eles e sorri outra vez para a câmera.
Outro aperto. Mais uma luz lépida. E mais um quadro construído em pontilhados pela
suavidade com que os dedos de Sam pincelavam a imagem recém-capturada. Tocava a

foto ainda presa à câmera, demorando-se nela, antes de erguer os olhos negros para a
símile viva da volúpia que tinha diante de si.
Se titulada, aquela fotografia se chamaria A esposa cativa de sua fêmea.
Incrédula diante de tanto, ela não largou a câmera. Em vez disso, aproximou-se mais de
mim — de quem não se cansava de olhar. Sentada na ponta do colchão, troquei com ela
um sorriso que, como três espelhos justapostos, refletia as infinitas faces do desejo mútuo.
— E esse? — insisti, ainda curiosa.
A resposta veio em forma de um beijo ardente, que empurrou o objeto momentaneamente
para o esquecimento. Sam, afoita por mim, veio por cima do meu corpo outra vez. Mas, fiel
às grandes viradas de mesa que tanto a definiam, tomei-lhe o turno da dominante.
— Resposta com palavras, Sam — exigi, conduzindo seu rosto para perto do meu.
Ficamos cara a cara, separadas por centímetros.
— E se eu não conseguir colocar em palavras? — questionou, deixando-se embriagar pela
segunda vez naquela noite. A primeira fora pelo álcool. A segunda, pelos meus braços.
— Então se manifeste em gemidos — ordenei.
E, como a mulher inteira que era, saí de cima dela, deixando-a por um instante em total
incompreensão. Tomei a câmera das mãos de Samantha e comecei a caminhar pelo
quarto, deixando cada peça de roupa pelo trajeto: saltos, vestido, calcinha, sutiã. Quando
cheguei ao canto, restava apenas ela. Desnuda. Atenta. Minha.
— Se toque enquanto eu poso para você, como disse que faria — determinei.
E assim fiz. Exibi-me mais de uma vez diante dela, que me capturava em ângulos cada vez
mais sensuais, conduzida ao próprio delírio ao baixar a câmera o suficiente para manter
livre a mão que encontrou a própria boceta.
Não quis preâmbulos. Quis seu prazer como resposta ao que via.
Arrebatada pelo encanto — e pelo meu encanto — Samantha começou a dedilhar o clitóris
em círculos, primeiro lubrificando o dedo no próprio interior. Espalhou o mel quente sobre o
ponto enervado e passou a girar a ponta do dedo na protuberância que endurecia conforme
o toque se tornava mais desesperado.
Quando sentiu o orgasmo subir, deixou escapar da garganta um gemido histérico, que
culminou numa última foto, dessa vez tirada entre suas próprias pernas.
— Me chupa — ordenou, rouca, acelerada.

Num intervalo mínimo de tempo, Sam passou de uma mulher que apenas afastava a
calcinha para completamente nua sob o meu olhar atento.
Neguei com a cabeça.
— Que fique claro que, se estou te chupando, é porque…
Interrompi a frase. Para quê justificativas naquele instante? Eu queria o gosto de Sam. Não
o do álcool. Não o do licor. Mas o da esposa que quase suplicava — se antes não
mandasse. Sempre dominante. Sempre imanente.
Com a língua sedenta, umedeci os lábios e iniciei, sem pudor, um movimento lento de cima
para baixo. Primeiro, lambi sua boceta inteira, como se a conhecesse outra vez. Depois cedi
ao rápido, ao contínuo, ao quente — como o inferno ou como o meio das pernas daquela
que eu insistia em chamar de diabólica.
Bebi como não neguei que beberia. Aproveitei-me como jamais cheguei a prometer em
troca e só abandonei o “trabalho” quando senti a mulher tremer, depois de quase uma noite
inteira entregue à sua língua. Não houve todas as palavras — mas o que é uma palavra
diante de um texto inteiro contido num gemido? Sílabas a mais não acrescentariam beleza
àquela breve sequência de “aahs” que escapava dos lábios vermelhos de Sam antes de
atingir o clímax.
Com Samantha ainda sentindo o eco do orgasmo na pele, sorri e fiz também meus
registros, limpando os cantos da boca antes de chupar os dedos. Não perdi nada. Só
ganhava.
Quando voltei a me posicionar sobre ela, fiz diferente. De quatro, sobre as pernas da
esposa, deixei-me à altura exata para que me alcançasse sentada. Sam poderia penetrar-
me sem sequer precisar se erguer, sem esforço algum. Era assim que me tinha. Sempre
entregue. Sempre querendo-a. Sempre sem que precisasse fazer nada além de ser
Samantha Castro — meu contraste perfeito.
Perfeita para que eu admirasse, para que me desbravasse, para que me tivesse.
Alonguei-me até a cômoda e dali retirei um lubrificante. A expectativa quase me
enlouquecia, mas o cuidado nos continha. Após três suspiros — que permitiram a Sam
tornar-se mais doce — ela usou uma das mãos para acalmar meu corpo, masturbando-me
lentamente.
Garantindo o ritmo, deixando-me automaticamente mole sob o estímulo sensível, desceu os
lábios até o orifício raramente visitado. Havia ali prazer e também a delícia do
reconhecimento: uma aventura vivida poucas vezes. Com a língua, provocou apenas a
superfície, permitindo que o primeiro ensaio da intromissão fosse suave.
Avançou aos poucos, com a vagareza exigida, sem perder a intenção. Lambeu até sentir o
corpo ceder — como a boceta exigia os dedos da mão esquerda.

Sam sorriu sozinha e, ouvindo meu gemido curto, misto de frustração e desejo, fez
exatamente o que sabia que eu queria. Trocou a língua pelo dedo, banhado em lubrificante,
coordenando uma nova entrada que aconteceu gradualmente até, enfim, encontrar-se
dentro.
Permaneceu ali. Esperou. Sentiu o momento exato em que eu a aceitei por completo.
Com essa permissão silenciosa, começou a se mover, combinando os estímulos de forma
dupla e inebriante. O que provocava de um lado, respondia do outro, até encontrar o ponto
em que os prazeres coexistiam na mulher que mais desejava entre todas.
Quando atingi o clímax outra vez, foi ainda mais intenso que o primeiro. Uma descarga
inexplicável percorreu meu corpo — iniciando no âmago e explodindo na mente. Havia algo
quase racional naquela sensação, ainda que nascesse do mais primitivo dos instintos.
Sexo. Talvez esse seja o nome do encontro dos contrastes.
Acontecia no escuro e entre peles desnudas que, invariavelmente, terminam sem fôlego,
repousando uma sobre a outra.
— Se eu não fosse casada com você, pediria agora mesmo — murmurei, caindo de costas,
completamente exausta sobre o colchão.
— Peça antes, agora e quando quiser. Prometo aceitar todas as vezes — respondeu Sam,
puxando-me para junto do seu seio, aninhando-me ali.
Também era uma forma de dizer eu te amo. Nem sempre, quando o corpo fala, é só sobre
prazer. Às vezes, depois de todo o tesão, basta um abraço para lembrar por que uma é a
mulher da outra.
Era além dos corpos.
Era uma da outra.

Conto erótico by Letícia Araújo (@Leteratura__)

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